sábado, 27 de outubro de 2012

Li "Elogio da Loucura" de Erasmo de Roterdão e ...

Ensaio escrito em 1508 por Desidério Erasmo, mais conhecido como Erasmo de Roterdão, e publicado em 1511.
Escritor, filósofo e teólogo, esteve constantemente envolvido em questões religiosas polémicas, em pleno Séc. XVI.
 
Nesta obra, a Loucura é personificada como uma entidade viva. E é na forma encantadora de uma Deusa que vai tecendo o seu próprio elogio e conduzindo as acções humanas.
Filha de Pluto e da Juventude, nasceu nas Ilhas Afortunadas, "onde as colheitas não exigem sementeira ou esforço," sendo aí desconhecidos o trabalho, a velhice e a doença.
Foi educada por duas ninfas encantadoras: a Embriaguez, filha de Baco e a Ignorância, filha de Pã.
Do seu séquito ou fiéis servidores que a ajudam a governar fazem parte Filáucia (o amor-próprio), Colácia (a lisonja), Lete (o esquecimento), Misoponia (a preguiça), Hedoné (a volúpia), Anoia (a leviandade), Trifé (a deusa das delícias) e Morfeu (o deus do sono profundo).
 
E é nesta figura da loucura que Erasmo de Roterdão baseia-se como ponto de partida temático, tanto para servir de protecção a si próprio, como para satirizar os costumes e tradições da época, atacando o forte moralismo arquitectado na hipocrisia religiosa. Ironiza as instituições e as relações de poder, desnuda os sentimentos humanos e ataca os sábios que se colocam no direito de criar directrizes e regras sociais ouvindo apenas as suas próprias convicções.
 
Tece as mais diversas críticas aos poetas, oradores, escritores, reis, príncipes, astrólogos, filósofos.
E aqui não resisto a publicar um dos excertos, espirituoso q.b., referente à sua "opinião" sobre os últimos:
"Seguem-se-lhes os filósofos, respeitáveis pelas barbas e pelo manto e que se gabam de ser os únicos sábios do mundo, enquanto os outros homens não passam de sombras para eles. Deliram com euforia, quando criam na sua fantasia mundos inumeráveis, quando medem com o polegar ou com o cordel o Sol, a Lua, as estrelas, as esferas; quando explicam sem hesitar o raio, os ventos, os eclipses e tantas outras coisas inexplicáveis, como se fossem íntimos confidentes da Natureza, construtora do mundo, e delegados do conselho dos deuses. A Natureza, entretanto, ri-se abertamente deles e das suas conjecturas, pois nada sabem com certeza, como o demonstram as discussões infindáveis que sustentam sobre qualquer assunto. Não sabem nada e gabam-se de que tudo sabem; não se conhecem sequer a si próprios, não descortinam o fosso ou a pedra que lhes barra o caminho, quer por fadiga da vista ou por distracção do espírito. Têm, porém, a pretensão de discernir perfeitamente as ideias, os universais, as formas substanciais, os elementos primeiros, as qualidades, as asseidades, coisas tão difíceis de ver que até a Linceu escapam. Desprezam o profano vulgar, quando amontoam, uns sobre os outros, triângulos, quadrados, círculos e outras figuras geométricas, misturadas e confusas como um labirinto; quando dispõem em ordem de batalha as letras do alfabeto e lançam aos olhos dos ignorantes a poeira que os cega! Alguns predizem também o futuro, por meio dos astros, prometendo milagres que ultrapassam a magia, e têm tanta sorte que encontram gente para os acreditar."
 
Todavia, a crítica mais dura é para os excessos de uma igreja já envelhecida e conspurcada por práticas cerimoniais vazias e sem sentido.
 
Diverti-me com a leitura desta pequena obra filosófica.
Sempre actual, recomendo vivamente este inteligente sermão!

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